[03/02/2008]
A violência como um problema de saúde pública

Clique aqui para imprimir esta página. Imprimir | Voltar para a capa

CONASS realiza seminário em Campo Grande, onde as Secretarias Estaduais de Saúde da região Centro-Oeste apresentaram experiências bem sucedidas no enfrentamento da violência.

 

A necessidade da integração das ações de diversos setores para o enfrentamento da violência deu o tom aos discursos de abertura do seminário Violência: Uma epidemia silenciosa, da região Centro-Oeste. O evento aconteceu nos dias 24 e 25 de janeiro, em Campo Grande , Mato Grosso do Sul, e reuniu aproximadamente 250 pessoas no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Presente na solenidade, o governador do estado, André Puccineli, disse que só com a articulação intersetorial será possível alcançar resultados práticos na diminuição dos altos índices de violência. “A partir das experiências bem sucedidas apresentadas neste seminário, certamente surgirão boas idéias para a elaboração de ações concretas para o enfrentamento do problema”. A Secretária de Saúde do Mato Grosso do Sul e vice-presidente do CONASS na região Centro-Oeste, Beatriz Dobashi, também enfatizou a necessidade do esforço conjunto para a melhoria da qualidade de vida da população brasileira. Segundo Dobashi, “é preciso articular a integração entre os setores”.

Para Helvécio Magalhães Júnior, presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), a violência é um processo cultural que hoje representa um tema importante a ser tratado também pela saúde pública. “Esta iniciativa do CONASS já deu os primeiros frutos, pois está incentivando os estados, os municípios, os gestores e as equipes, as entidades não governamentais e o próprio Ministério da Saúde a tratarem o tema como um problema do setor”, destacou. Fábio Trad, presidente da OAB de Mato Grosso do Sul e anfitrião do evento, disse que a OAB se insere completamente no combate à criminalidade. Ele citou o exemplo do projeto “MS contra a violência”, para ilustrar a necessidade da atuação conjunta no o combate à violência. “A violência não é atribuição apenas dos juristas e da segurança pública. Trata-se de um problema complexo e estrutural, que deve ser tratado de forma multidisciplinar, em conjunto com a assistência social, psicólogos, trabalhadores da saúde, líderes comunitários e demais atores sociais”. O Secretário Executivo do CONASS , Jurandi Frutuoso, enfatizou a importância da participação dos trabalhadores do SUS no enfrentamento da violência e disse que é preciso estimular a discussão e a conscientização da sociedade para que a segurança seja feita por todos. “Esse é um dos objetivos do CONASS com a realização deste seminário”, destacou.

O diretor do Departamento de Análise de Situação de Saúde, da Secretaria de Vigilância à Saúde (SVS), do Ministério da Saúde, Otaliba Libânio, também falou da integração dos setores para o enfrentamento da violência que, segundo ele, pode ser presumida e reduzida se a saúde, a educação e a segurança pública trabalharem em parceria. Ele citou como projetos bem sucedidos no enfrentamento da violência, o Estatuto do Desarmamento, o Código Nacional de Trânsito e a proibição da venda de bebidas alcoólicas nas rodovias federais brasileiras. “Além das mortes e seqüelas físicas e mentais, a violência traz um ônus financeiro para os cofres públicos”, disse o Secretário de Saúde de Mato Grosso, Augustinho Moro.


ENTREVISTA

Secretária de Saúde de Mato Grosso do Sul e vice-presidente do CONASS na região Centro-Oeste, Beatriz Dobashi, fala ao Consensus sobre o seminário Violência: uma epidemia silenciosa, da região Centro-Oeste

 

CONSENSUS: O que você acha da inclusão do tema violência na agenda do Sistema Único de Saúde?

DOBASHI: Aqui no estado temos o projeto “MS contra a violência”, idealizado pela OAB em parceria com vários setores. Esse tema tem instigado, não só as discussões dentro das instituições e seus grupos técnicos, mas também na comunidade. Foram realizados movimentos de rua a fim de incitar a cultura da paz e a prática da pactuação no lugar da violência. Essa é uma atuação importante. Temos batalhado também as questões da promoção da saúde e da qualidade de vida, assim como o desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente, a valorização da família, a inclusão social e o acesso aos serviços públicos – à escola, à habitação, à segurança – porque na exclusão encontramos a raiz da violência. Trabalhando estas questões, temos cidadãos mais comprometidos, mais felizes e mais preocupados com o que tem real valor, então, a violência é diminuída em função da mudança de postura das pessoas. A idéia desse seminário veio ao encontro da nossa tentativa de intersetorialidade, de sentar na mesma mesa e falar de violência com a saúde, a educação, o trabalho, a promoção social, a segurança e o trânsito.

CONSENSUS: É possível, no âmbito do SUS, iniciar a articulação com outros setores e buscar parcerias?

DOBASHI: Claro, é perfeitamente possível. Inclusive, o espírito do Pacto pela Saúde, que resgatou o processo de planejamento, o processo de olhar para o seu território e enxergar quais são as determinantes sociais ali presentes e quais as formas de intervenção possíveis. Isso é uma grande deixa para a percepção de que não se pode intervir sozinho, que é preciso trabalhar em conjunto e ter uma articulação de agenda pública e que isso é uma ação de governo. Articular agendas sociais de modo que as ações sejam integradas e dirigidas para aquele território de acordo com o diagnóstico de problemas e os problemas de saúde vistos de forma mais abrangente, com refl exo na qualidade de vida. Acho que é possível sim. O caminho da intersetorialidade é imprescindível.

CONSENSUS: A realização dos seminários, com as discussões e apresentações dos projetos e experiências, pode ser esse caminho?

DOBASHI: Com certeza. A gente abraçou a causa do CONASS porque a troca de experiências, embora seja uma expressão usada muito rotineiramente, é de extrema importância. Por menor que seja o público, quando alguém mostra o que fez está fazendo vários movimentos positivos. Está se auto-avaliando e, por isso, pode melhorar sua ação; pode detectar falhas e melhorar a sua atuação; e pode ainda mostrar para o outro que é possível, servindo como exemplo e trazendo idéias inovadoras e criativas. Então, a troca de experiências é muito produtiva, principalmente para as pessoas que estão aqui, que dificilmente teriam a oportunidade de visitar esses lugares e conhecer os trabalhos que estão sendo realizados.

 
Voltar para a capa